Tenho para mim que minha atração pela língua inglesa e o gosto musical que me acompanha até hoje nasceram na Capital das Alterosas, no já longínquo ano de 1975, quando, envolvido pelo manto sagrado do Galo Forte Vingador, eu me colocava confortavelmente abaixo da escada em curva que conduzia ao pavimento superior da casa assobradada, abria a vitrola Philips vermelha em formato de maleta, e “botava” pra tocar um disco do Elton John que, por mais que tenha procurado ao longo desses mais de 30 anos, jamais encontrei (acho que era pirata, pois não faz parte da discografia oficial do lorde inglês).
Tratava-se de um LP (por maior que seja a tentação, não vou divagar na descrição do que seja um Long Play) cuja capa era uma espécie de foto ou gravura do rosto do artista em close (escrevi sem aspas porque a palavra está no “Aurélio”, apesar de não constar do “VOLP”) que pronunciava os óculos do tipo extravagante que ele costuma usar (fiquei meia-hora buscando uma alternativa a “usar óculos”, mas não achei, bolas!).
Lembro-me de deslizar a agulha pelas faixas Philadelphia Freedom, Crocodile Rock, Goodbye Yellow Brick Road e Skyline Pigeon, entre outras, acompanhando-as com meu “embromation”, de olhos fechados e alto volume da voz. Vez por outra, meu tio, o mais velho dos irmãos de minha mãe e nosso anfitrião, do alto de sua fluência na língua ânglica, passava por mim e vaticinava que eu teria muita facilidade para falar no dialeto de Shakespeare (ledo engano do meu tio, já que, ainda hoje, minha pronúncia macarrônica não me permite nada além de um sorry pra cá e um thank you pra lá, se tanto).
Voltei pra casa com a bolacha debaixo do braço. Foi meu primeiro disco. O segundo foi o “Greatest Hits”, do Queen, e tenho certeza de que, poucos anos depois, quando já trabalhava e podia fazer o que quisesse com meus trocos, comecei a comprar coisas do Black Sabbath, do Iron Maiden, e assim por diante. Lembro-me, inclusive, que no meu aniversário de 1986 esse mesmo tio me presenteou com o “Fly On The Wall”, do AC/DC, que nem era o disco mais recente na ocasião, já que o “Who Made Who“ fora lançado pouco antes.
Não demorou muito para começar a assistir a shows. O primeiro deles foi o do Van Halen, no ginásio do Ibirapuera, em janeiro de 1983. Fui com um primo do outro lado da família, e ainda hoje tenho comigo o canhoto do ingresso, guardado em algum canto de algum lugar que não faço a mínima idéia de onde seja. Um dos mais marcantes, sem dúvida, foi o primeiro do Metallica, também no ginásio do Ibirapuera, em 1989, exatamente dois dias depois do meu aniversário de vinte anos, razão pela qual digo que esse foi o melhor presente de aniversário da minha vida.
Agora, não teve um show melhor do que a apresentação conjunta do Mercyful Fate e do King Diamond em São Paulo, no Highlander, em agosto de 1996. Simplesmente antológico!
(Abre parênteses: a partir desta linha eu ultrapassarei o limite que estabeleci para os textos que tenho publicado. Lamento, Roseli, mas, desta vez o texto ficará mais longo, porque não tive tempo, nem vontade, de fazê-lo curto. Fecha parênteses.)
Fiz todo esse rodeio para falar do que realmente interessa, se é que há algum interesse nessa história além do meu próprio.
Esta semana fui a mais um show do The Cult, no Credicard Hall. Enquanto esperávamos pela apresentação sofrível do Ian Astbury, compensada pela simplicidade e competência do Billy Duffy, falávamos, como sói acontecer antes de concertos, dos shows de nossas vidas, dos discos de nossas vidas, das melhores formações das bandas de nossas vidas, olhando o povo que chegava, apreciando a fauna ao redor e o sabor da melhor cerveja Petra, adquirida pela bagatela de cinco paus a latinha (!).
Foi então que me ocorreu que, ao tempo do primeiro show do Metallica, mencionado lá em cima, seria inconcebível vermos alguém com uma camiseta, por exemplo, da Madonna. De algum artista punk ou funk, então, nem se fale! Impossível.
Naquela época uma tribo não se misturava com outra, a não ser para encetar brigas tão homéricas quanto estúpidas. Hoje, porém, vê-se gente de todo jeito, pra todo gosto, misturada e feliz da vida: é um com uma camiseta do KLB, cantando uma música do ZZ Top, abraçado a outro alguém vestindo terno, em meio a gente vestida de preto ou com suas minúsculas (e deliciosas) saias pregueadas etc. etc.
Resmunguei comigo mesmo essa constatação, e meu (sempre) companheiro de jornada, ouvindo-me, começou a filosofar comigo que talvez aquela nossa postura radical, típica da década perdida, fosse fruto da transição que vivíamos da ditadura para a democracia, da longa proscrição da manifestação de pensamento, com que nós, recém-apresentados a esse néctar, acabamos nos melecando, transformando-o, no mais das vezes, em fel. E por aí fomos.
Divagamos, literalmente. Quando nos demos por nós, vimos que o show começara. E que era bom termos, nós, também, evoluído, deixando de ser radicais, e de ouvir apenas um estilo de música como se ele fosse um mantra, uma religião, e nós, fanáticos, bitolados.
Nada como, hoje, ainda apreciar aquele que é meu estilo de música preferido: o heavy metal. Melhor, porém, é poder abrir as portas-balcão da varanda, baixar a luz, abrir uma garrafa do meu eterno companheiro Jack, ou, quiçá, de um bom Catena Zapata, e escolher entre John Coltrane, Ottmar Liebert, Softcell, Paulinho da Viola, Luciano Pavarotti, whatever...
Um dia farei como o Nick Hornby em “Alta Fidelidade”, e escreverei as minhas listas das “cinco mais”. Antes disso, vou procurar alguma música do Elton John na internet, para, quem sabe, voar, na minha imaginação, feito um skyline pigeon...