Mente Demente


30/09/2009


Pouco depois de completar cinco anos ocupando este espaço, rareiam cada vez mais a inspiração e a lembrança dos rabiscos que ficaram gravados ao longo do tempo. Combinados um e outro fatores, haja forças para superar o desestímulo, alimentado cada vez mais pela também crescente falta de memória, que me impede de lembrar se já não comecei um outro texto como começarei este. Doravante, é claro...

Na época dos hoje chamados ensinos fundamental e médio, mais no primeiro do que no segundo, ao voltarmos de nossas férias a “tia” dava como lição de casa (ou como pretexto para manter a gurizada ocupada enquanto ela lixava as unhas) escrever uma redação com o tema “minhas férias”.

Naquele tempo, e apesar de eu ter começado a trabalhar ainda infante na oficina do pai, minhas férias eram regulares: sempre em julho e de meados de dezembro ao final de janeiro. Invariavelmente elas eram passadas lá na fazenda, no lugar aqui tantas vezes descrito, em meio àquela que é a minha família de verdade, para fazer sempre mais do mesmo. Por conta disso, depois que fiz a primeira redação não voltei a derramar suor para elaborar outras: mudava uma palavra aqui, o nome de alguém ali, um detalhe acolá, e pronto!, estava acabado o dever.

Quando declarei minha independência e me libertei do meu trabalho com o pai (em 1989), fui trabalhar de empregado, até que, finalmente, em 1998, me demitiram pela primeira e última vez: montei meu próprio negócio. Desde então, aquelas férias que eram regulares passaram a ser exceção: pouco mais de um mês em 1993 e 1995, quase dois meses em 1998, e agora em 2009 dez dias. Fora isso, emendei um feriado aqui, outro ali, viajei para cá e para lá, mas sempre por curtos períodos e sem cara de férias propriamente ditas, no mais das vezes entre natal e dia de ano.

Não vou tomar o tempo de ninguém com redações sobre os dez dias que passei em distantes paragens, longe da minha língua nativa, em que não me dediquei a nada além do ócio, à arte de observar, ouvir e aprimorar o sentir...

É interessante como as coisas mudam com o tempo. Antes, discursar sobre as férias era obrigação; hoje, é um prazer. As próprias férias, por muito tempo esporádicas, pretendo tornar regulares. Porque, ainda que eu nada tivesse observado e vivido em dez dias que valeram por dois meses, ao menos eu terei matéria-prima para rabiscar algo mais para você, que não tira férias das bobagens que escrevo e nem ganha nada por isso.

Escrito por Phurba às 15h26
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24/09/2009


Deu na coluna do Contardo Calligaris, na “Folha” de hoje:

“Filhos e pais não se amam ‘naturalmente’. Claro, a extrema dependência nos primeiros anos da vida humana parece impor o amor entre filhos e pais. E, por exemplo, a mortalidade dos pais faz com que os filhos lhes apareçam, na velhice, como única justificativa de sua vida. Mas essas são apenas circunstâncias que instituem, em nossa cultura, a ilusão de que o amor recíproco entre pais e filhos seja ‘natural’.
Não é assim. O amor entre pais e filhos não é garantido, nem por lei; de ambos os lados, ele pode ser, isso sim, conquistado e merecido.
Ou não.”

Como eu gostaria de escrever como esse homem, ter sua cultura e sua coragem de dizer coisas que sentimos, apesar de, hipocritamente, não reconhecermos.

Só me resta, aqui desse meu canto, agradecer.

Escrito por Phurba às 14h32
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14/09/2009


Na noite do baile de formatura da minha irmã, ela recebeu um telefonema que a enfureceu: uma de suas melhores amigas, que fora, inclusive, sua colega de turma, informara que não iria à festa, pois “não estava a fim”.

Lembro-me que tentei consolar minha irmã (com minha pretensa e irritante compreensão para com o outro e o tamanho de sua régua — nem sempre da mesma medida que a nossa), dizendo-lhe para tentar compreender, e que talvez fosse melhor, mesmo, sua (nossa) amiga não ir, do que ir contrariada ou sem vontade, sei lá, e ficar de bico o tempo todo (pura projeção minha), por exemplo; ao que minha irmã redargüiu: “Que avisasse antes, então, para eu poder convidar outra pessoa”.

É. Toda moeda tem dois lados, e eu ponderei que “mal humor” não escolhe a hora para nos visitar, assim como, vejo hoje, consideração, por menor que seja, também não faz mal a ninguém.

Pois bem. Divagações de advogado do diabo (pra lá e pra cá) deixadas de lado, vamos ao que interessa (se é que interessa a alguém que não seja eu próprio).

Recentemente um grande amigo casou-se. Para comparar todas as situações sobre as quais estou falando, tenho de dizer o seguinte (sem ferir a intimidade de quem quer que seja): o camarada convidou umas trezentas pessoas para o festejo, e uma boa parte delas atendeu ao R.S.V.P. Porém, mesmo assim, faltaram bem lá uns cinqüenta convidados.

Aí eu pergunto: o sujeito gasta uma fortuna para oferecer uma recepção em local pra lá de luxuoso, com boa comida, bebida à vontade, música para descontrair etc., e alguém se dá (como se diz na minha terra) à pachorra de, após confirmar presença, simplesmente não ir?

Não creio que uma “epidemia” de dor de barriga tenha acometido cinqüenta ou mais indivíduos na mesma noite (“coincidência” demais para o meu gosto), ou que eles todos tenham, de última hora, passado por perrengues tais que lhes impossibilitaram, absolutamente, de honrar o compromisso que assumiram.

Honrar. Essa é a palavra chave deste post. Por mais que a noite chuvosa e fria desse, mesmo, uma preguiça tremenda, se as pessoas que lá não compareceram soubessem o significado da palavra “honrar”, e que convite formulado (e por elas aceito) era motivo de enorme honra, jamais se dariam a tamanha desfeita. Teriam honrado aquilo a que se comprometeram...

Até bem pouco tempo eu não sabia o que significava R.S.V.P. Procurei saber e descobri (http://pessoas.hsw.uol.com.br/questão450. htm). E o que descobri fez com que eu desse razão à minha irmã, apesar de, em seu convite verbal, tenho certeza, ela sequer fizesse menção a um pedido para “responder ao convite, por favor”. Entendi tanto que o que senti não foi fúria: foi tristeza, mágoa, mesmo!

Por certas coisas não se implora; ou melhor, não se devia implorar.

E eu, que estou cada dia mais à beira dos quarenta, bem que queria ser mais veemente do que fui em meu convite para essa passagem vindoura, porque, às vezes, o que parece óbvio não é, já que tem gente que simplesmente não lê o que se escreve; outros, lêem e não entendem o que foi lido; e muitos, embora leiam, simplesmente fazem de conta que não leram.

É por essas e outras que o melhor, mesmo, como escrevi em crônica recente, é dizer a verdade. Assim, quando você tiver de convidar alguém, faça como antigamente, ainda que dê um trabalho do caralho: não mande e-mail, não telefone e nem mande carta pelo correio; vá pessoalmente e diga que você gastou uma puta grana, razão pela qual precisa da confirmação da presença para saber quanta bebida e comida precisará comprar, quantas mesas e cadeiras terá de alugar; informe que no lugar cabem x pessoas, e que, se esse convidado confirmar e não for, tirará de outro convidado a possibilidade de ir, esvaziando a festa e fazendo você, anfitrião, gastar sem necessidade; e, entre outras, para quem é o convite, ou seja, para ele(a), convidado(a), e seu(sua) acompanhante, e não para bicos em geral, como sogra, namorada do irmão, papagaio e/ou afins...

Tudo isso parece óbvio. E não me parece que seja necessário compreender francês para saber de tudo isso.

Infelizmente, porém, óbvio já vi que não é.

Pra não mandar ninguém para “aquele” lugar, só me resta, então, pedir àqueles a quem veste a carapuça, que aprendam francês, ou leiam o link recomendado, já que certas coisas, se não vêm do berço, podem, sim, ser apreendidas.

C'est là mon espoir.

Escrito por Phurba às 19h31
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09/09/2009


Quando a idade chega, mais e mais temores vão se acumulando àqueles todos que a gente alimenta desde que cortado nosso cordão umbilical. Ainda mais se o assunto for saúde.

Com os quarenta anos batendo à porta, assola-me o medo de ter um infarto. Na minha idade, parece que ocorrências desse tipo não têm meio-termo: vêm pra matar, mesmo. Amigo meu, da minha idade, foi vítima disso no ano passado, deixando querida amiga viúva e com filho pequeno.

Eu, que, como costumo dizer, tenho todos os sintomas possíveis para enfartar (39 anos e 336 dias de idade, advogado, obeso, que me alimento e durmo mal, consumidor contumaz de café e voraz de álcool, sedentário, fumante inveterado dos treze até pouco tempo atrás — hoje sou apenas fumante eventual), não sei como ainda não parti dessa pra melhor.

Pensei muito nisso nas minhas últimas férias. Lá de Boston ouvi uns bochichos de que em Nova Iorque, minha estada seguinte, haveria mais de quinhentas mil pessoas com influenza A h1n1. Eu, que saíra do Brasil com uma tosse infernal, e que, ao depois, já no meu destino final, sofri naquilo que ousam chamar de “quarto de hotel” de tanto calor e abafamento, suando bicas madrugadas afora, pensei que chegara minha vez.

Como em vida de pobre desgraça pouca é bobagem, delirei com pesadelos de ter contraído a tal da gripe suína, para morrer lá, na lonjura de casa, e dar trabalho pros outros com tudo o que uma morte fora da terra causa de transtorno. Imaginava que poderia cair duro na Columbus Circle, e que nem aproveitaria uma jornada de aventura dentro daquelas ambulâncias cinematográficas, pois, como diriam os paramédicos, teria dado entrada num pronto-socorro qualquer do Bronx (evidentemente meu seguro-viagem não permitiria que fosse atendido por um Mount Sinai da vida...) já em óbito.

Para o infortúnio dos que sobrevivem às bobagens que escrevo, também eu sobrevivi: não contraí gripe alguma, e aquilo que parecia uma febre infernal não deve ter passado de reflexo da falta de circulação de ar no “pardieiro” que reservaram para minha hospedaria, ou efeito colateral dos vinhos que apreciei no Cellar 58 e no Centovini.

Agora, de volta, trouxe como lembrança (além das memórias de um lugar que nem é tão bonito, mas que é, sem dúvida, o mais legal que conheço, por mais vago que seja a expressão “legal”) muitas dores nas pernas, por ter andado pra cima e pra baixo, sem parar, por dez, doze horas por dia, explorando cada cantinho desconhecido, apreciando cada imagem, e curtindo cada instante, tudo na mais absoluta plenitude.

E concluo que valeu o pequeno risco de ficar doente, mesmo porque somente os orientais caminham com máscaras entre a multidão, e o alarde que aqui se faz está muito distante de que uma epidemia seja real. E, ademais, não é preciso contrair gripe pra ir dessa pra melhor: basta ter um infarto em qualquer lugar. Ou continuar a visitar a Mente Demente.

Escrito por Phurba às 18h21
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08/09/2009


Elegância do Comportamento

Aqueles que já estão habituados aos delírios da Mente Demente sabem que raramente digo o nome do santo (ou do demônio, no meu caso), apesar de não esconder o milagre (rectius: sacrilégio).

Desta vez, porém, não vou omitir os créditos. O texto que segue foi escrito por meu amigo André. Trata-se de uma adaptação de texto extraído do livro “Educação enferruja por falta de uso”, de Henri Toulosse Lautrec (1864-1901), que me foi gentilmente cedido para publicação de alguma coisa que preste por aqui.

Espero que, tanto quanto eu, aproveitem a leitura.

     Existe uma coisa difícil de ser ensinada e que, talvez por isso, esteja cada vez mais rara: a elegância do comportamento. É um dom que vai muito além do uso correto dos talheres e que abrange bem mais do que dizer um simples obrigado diante de uma gentileza.

É a elegância que nos acompanha da primeira hora da manhã até a hora de dormir e que se manifesta nas situações mais prosaicas, quando não há festa alguma nem fotógrafos por perto. É uma elegância desobrigada.

É possível detectá-la nas pessoas que elogiam mais do que criticam. Nas pessoas que escutam mais do que falam. E quando falam, passam  longe da fofoca, das pequenas maldades ampliadas no boca a boca.

É possível detectá-la nas pessoas que não usam um tom superior de voz ao se dirigir a frentistas, por exemplo. Nas pessoas que evitam assuntos constrangedores porque não sentem prazer em humilhar os outros. É possível detectá-la em pessoas pontuais.

Elegante é quem demonstra interesse por assuntos que desconhece, é quem presenteia fora das datas festivas, é quem cumpre o que promete e, ao receber uma ligação, não recomenda à secretária que pergunte antes quem está falando e só depois manda dizer se está ou não está.

Oferecer flores é sempre elegante. É elegante não ficar espaçoso demais. É elegante você fazer algo por alguém, e este alguém jamais saber o que você teve que se arrebentar para o fazer... porém, é elegante reconhecer o esforço, a amizade e as qualidades dos outros.

É elegante não mudar seu estilo apenas para se adaptar ao outro. É muito elegante não falar de dinheiro em bate-papos informais. É elegante retribuir carinho e solidariedade. É elegante o silêncio, diante de uma rejeição...

Sobrenome, jóias e nariz empinado não substituem a elegância do gesto. Não há livro que ensine alguém a ter uma visão generosa do mundo, a estar nele de uma forma não arrogante. É elegante a gentileza. Atitudes gentis falam mais que mil imagens... Abrir a porta para alguém é muito elegante... Dar o lugar para alguém sentar... é muito elegante... Sorrir sempre é muito elegante e faz um bem danado para a alma... Oferecer ajuda... é muito elegante... Olhar nos olhos ao conversar é essencialmente elegante...

Pode-se tentar capturar esta delicadeza natural pela observação, mas tentar imitá-la é improdutivo. A saída é desenvolver em si mesmo a arte de conviver, que independe de status social: Se os amigos não merecem uma certa cordialidade, os desafetos é que não irão desfrutá-la.

Escrito por Phurba às 17h23
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31/07/2009


Acabara de adquirir um exemplar do “The Shaman”, de Piers Vitebsky. Folheava aquela fina edição inglesa da Duncan Baird Publishers ali mesmo, no Café da Barnes & Noble situada nas adjacências do Madison Square Garden. Não me dedicava a uma leitura profunda da obra (e sim à contemplação de suas arrepiantes imagens de culto ao fogo, saunas sagradas, rodas de cura, e outras tantas que me são tão familiares quanto enigmáticas), pois acabara de passar por outra incrível experiência de contato com antigas civilizações e outras culturas no Museu de História Natural (que fica para ser contada alhures — com perdão do mestre Cony).

O simples manuseio daquele livro me fez lembrar uma mensagem (que, permitam-me o comentário, já não sei mais se me foi transmitida de viva voz por minha mestra maior, se veio até meus ouvidos através do vento que trespassou pelo “povo em pé”, ou se foi advertência sussurrada em meus sonhos pelos meus guias espirituais ou por algum xamã habitante de meus pensamentos) mais ou menos assim:

“Os homens diferenciam-se conforme os círculos que traçam. Muitos demarcam o seu exclusivo entorno, e não cuidam de ninguém mais. Outros tantos, abrindo um pouco mais as pernas do compasso, desenham uma linha para dentro da qual trazem também sua família. Alguns, em menor quantidade, ousam estender também para seus amigos o raio do círculo que rabiscam. Por fim, há os que não fazem círculo algum, pois sua missão é cuidar de todos os que estão dentro do círculo maior, a esfera terrestre, o círculo que não precisa ser feito, e sim cuidado.”

O (ou “A”, nunca sei) moral da estória é você avaliar qual o tamanho do seu círculo, e se ele foi traçado por você mesmo, ou se um outro “Alguém” estabeleceu os seus limites, a sua missão.

Quando eu divagada sobre isso tudo, fui interrompido por um garoto, que me pediu ajuda financeira para uma instituição do tipo “Kids for Life”. Como desculpa para não contribuir, tanto por fazer benemerência a meu modo, quanto por ser conceitual e ideologicamente contra esse tipo de “esmola”, disse ao garoto que não entendia inglês.

Ele redargüiu, perguntando que língua eu falava. Incomodado com aquilo, por todas as razões que somente minha egoística soberba explica, disse que falava italiano, tornando ao meu entretenimento.

Instantes depois, veio lá novamente o menino, desta feita com um iPhone na mão, pedindo que eu lesse o que estava escrito. Para minha surpresa, não é que o danado tinha traduzido para o italiano o pedido de contribuição?!

Eu, que não domino nem o português, quanto mais o italiano, corei de vergonha, comigo, só no meu íntimo, por conta do ridículo papel a que me prestei. Fiz uma confusa gesticulação dando a entender que “não, obrigado, não tenho dinheiro”, e meu interlocutor, resignado, voltou ao seu trabalho de abordar outros transeuntes em busca de um dinheiro que, sabe-se lá, é ou não destinado à tal instituição.

Foi então que pensei com meus botões: aquela atitude mostrava a mim mesmo qual é o tamanho do círculo que tracei?!

Pelo sim, pelo não, concluí que não é preciso ser um xamã, e nem dispor de alta tecnologia, para saber qual o tamanho do meu círculo, para perceber que são já corriqueiros “pedidos de esmola high tech”, ou mesmo para aprender que o melhor, ainda, é dizer a verdade.

Escrito por Phurba às 14h58
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04/06/2009


Procuro. Não acho.

Entro em desespero.

Quem sou eu, onde estou?

Em mim ou em você? Aqui ou acolá?

Resposta? Tudo ou nada disso!

Quem há de responder?

Pra que responder ou saber?

 

Não sabê-lo é o que me move,

Pois não fico estático,

Conformado,

Esperando as coisas acontecerem.

 

Desespero é deixar de esperar,

Ir atrás das coisas, onde quer que estejam.

Fazer e acontecer.

 

Como ver isso negativamente, então?

 

Sou um desesperado.

Desespero é meu combustível,

Minha morte alegórica,

Minha vida em construção,

Meu ser se buscando,

Pra nunca se encontrar.

Simplesmente por querer viver

Desesperadamente...

Escrito por Phurba às 14h40
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07/05/2009


 

 

Sou um chato de plantão, daquele tipo que se “pega” em pequenas coisas e não dá trégua enquanto não as resolva, independentemente de o desfecho ser bom ou ruim.

Ontem, por exemplo, recebi um e-mail do meu gerente de banco, dizendo que minha conta estava negativa, e que isso implicava pagamento de juros e tarifas enquanto eu tinha dinheiro aplicado. Até achei bacana que haja esse alerta, que, em tese, pretende proteger a incolumidade de minhas parcas economias. A não ser por um pequeno detalhe: minha conta não ficou negativa em momento algum!

Quando liguei para o gerente, ele argumentou que o sistema gerou a mensagem automaticamente, e que o débito referente a taxas e juros (sim, a cumulação das duas coisas, tarifa mais juros) seria oriundo de algum saldo devedor ocorrido no último mês. Controlado e controlador como tenho sido (talvez seja melhor reconhecer que o seja desde sempre), neguei qualquer saldo devedor que certamente não tive, e pedi uma averiguação e uma satisfação a respeito.

Terminada a ligação, tive a pachorra de emitir um extrato dos últimos 30 dias, e coloquei na ponta do lápis (figura de linguagem para a criação de uma planilha em Excel, com conferência manual por uma calculadora de mesa daquelas antigas que imprimem a evolução do cálculo) o histórico da movimentação no período, concluindo não só que não fiquei no vermelho, como também que as contas do banco estavam erradas: havia cinco centavos de real a mais na minha conta.

Agora vocês vão entender por que todo esse aranzel: o débito relativo a tarifas e juros correspondeu a míseros quatro reais e vinte centavos, e hoje já estava contabilizado em minha conta o estorno respectivo.

Dei-me por satisfeito? De modo algum. Liguei novamente para o gerente e desfiei o rosário, instando-o a estornar também os R$ 0,05 que estavam indevidamente sob depósito em meu nome, e para que, juntos, fizéssemos as contas de toda a minha movimentação desde a abertura da conta, pois, se no período de um mês eu tive creditada irrisória quantia que não me pertence, ele valor poderia ser bem substancial ao longo dos tempos, razão pela qual quero e faço questão de apurar se me creditei indevidamente ou se o banco é que tem se locupletado às minhas custas por não saber sequer fazer contas, atividade elementar e ínsita às suas atividades.

Francamente não sei onde isso vai parar. Perdi um tempo dos diabos com toda essa estória, que ainda se prolonga por meio dessas linhas mal escritas.

O que sei é que aprendi a engolir alguns sapos ao longo de minha existência. Porém, minha goela não suporta qualquer um, de qualquer tamanho, e por vezes ainda regurgito. Tanto quanto meu eventual leitor deve estar regurgitando, sem conta, no final dessas contas resultantes de minhas palavras, que não fecham. Ambas...

 

* * *

 

Aos Deficientes Visuais: a imagem que ilustra este post é uma foto de um emaranhado de impressões de contas feitas em calculadoras de mesa a bobinas.

Escrito por Phurba às 14h39
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25/03/2009


A mãe de um grande amigo tem um nome pouco comum. Para não expor ninguém, doravante, como se diz em contratos, ela será simplesmente designada “Dona Maravilha”.

Evidentemente, de início não éramos tão próximos quanto hoje. Lembro-me do dia em que conheci sua genitora, no casamento de um camarada comum. Espírito de porco e inconsequente como poucos, não me contive após as apresentações de praxe: fiz um gracejo dos mais infelizes, permeado de trocadilhos pobres e rimas vulgares, que meu pejo impede de reproduzir.

A pobre coitada não sabia onde enfiar a cara. Seu marido, que também estava presente, precisou ser contido para não cometer um homicídio doloso — do qual certamente seria absolvido se viesse a ser processado, no mínimo por legítima defesa da honra, afora o extenso rol de atenuantes. E meu amigo fez aquela típica expressão facial que transita indefinidamente entre e desprezo e a comiseração.

Ficamos um bom tempo sem nos falar (“sem nos falarmos” é certo também, professor Nogueira Duarte?), até que um dia acabamos por nos entrevistar novamente, provavelmente em alguma outra festa de algum amigo comum. A reaproximação foi paulatina, posterior a um constrangido e tímido aperto de mãos. Até que, viradas muitas páginas de calendário, e sem que tivéssemos tocado no assunto uma vez sequer, certo dia, do nada, depois de (aparentemente) já termos esquecido o que ocorrera, simplesmente me desculpei.

Não retomamos feridas já cicatrizadas ou mesmo desenterramos defuntos pútridos. Seguimos nossas vidas, às vezes caminhando lado a lado, e nada pôde abalar nossa amizade, hoje mais sólida que nunca. Encerramos um capítulo mal escrito de nossa história em quadrinhos, e meus pecados foram absolvidos com um simples “esquece”. Que maravilha!

Na vida da gente por vezes cometemos deslizes (pra usar e abusar do famigerado eufemismo fagneriano) que se podem consertar, como certamente muitos deles cometi. Não chegaram, os meus, a configurar crimes hediondos, embora fizessem lá suas vítimas, abrindo feridas que, se e quando mal cuidadas, poderiam resultar em gangrenas incuráveis.

Por sorte nunca tive pejo de pedir desculpas por minhas muitas contravenções, até porque todas foram culposas. Em função disso, ao longo dos meus (já) muitos anos, que invariavelmente afiguram-se séculos, poucos foram os imbróglios incontornáveis e os ressentimentos duradouros. Inimigos, então, desconheço-os, nada obstante reconheça possa tê-los “conquistado”.

Muito disso, sem dúvida, se deve à minha capacidade de pedir o penico. Porém, isso de nada adiantaria se não fosse a indulgência de meus interlocutores — a mesma que espero de quem eventualmente esteja me lendo agora, pois ia escrever sobre a capacidade de perdoar que não tenho, e que talvez peça “demais da conta”, sem razão, em meu favor.

Escrito por Phurba às 16h55
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03/02/2009


“Tudo está no seu lugar

Graças a Deus, graças a Deus”

(Benito Di Paula)

 

O Luiz vai casar, a Luciane vai ser mãe, e o Boto vai ser pai pela segunda vez.

O Bellini não escreve desde o dia 31 de dezembro.

No final de semana em que o Lenny fez três gols em uma mesma partida pelo Palmeiras, o Kléber Pereira não fez nenhum, e ainda acertou quatro das seis bolas na trave que houve no jogo entre Santos e Ituano.

O Bradesco perdeu o posto de primeiro banco brasileiro em ativos; e, se não amargou prejuízos no último trimestre, teve substancial queda nos lucros. Isso, aqui, porque lá os Citigroup da vida estão à beira do colapso e até a Microsoft demite.

Hussein Obama, um negro democrata com sobrenome árabe, foi eleito e assumiu a presidência dos Estados Unidos.

Federer, quase recordista em títulos de Grand Slam (tem 13), vencedor de quatro edições da Masters Cup, de quatorze Masters Series e de vinte e seis outros torneios da ATP, milionário, chora feito criança após ser derrotado na final do Aberto da Austrália.

Uma criança de três anos, que brincava de estilingue com um coleguinha, teve o crânio perfurado por um projétil, o que passou despercebido pela médica de PS, que diagnosticou uma lesão superficial causada por uma pequena pedra.

Um tal IBP (abreviatura da designação em inglês da “Parceria Internacional sobre o Orçamento) classificou o Brasil em oitavo lugar em ranking de transparência do gasto público.

E assim vai...

Fora essa última notícia, que dá conta de um relato que só pode ser oriundo de um lunático — mas do qual não se pode duvidar, pois a coisa anda tão escancarada por essas bandas que a bandidagem age é à luz do dia, mesmo, publicando toda a sua ladroagem no Diário Oficial —, todas as demais reproduzem fatos. Não se pode, contudo, dizer que esses fatos pudessem ser considerados verídicos em outros tempos, tempos nem tão remotos assim. Nenhum deles.

Mas são! E isso nos faz invocar o título de uma outra canção do Benito Di Paula: “Tudo está mudado.”

Aí a gente abre o jornal, e vê que o Sarney foi eleito presidente (com “p” minúsculo, mesmo) do Congresso Nacional, Michel Temer da Câmara dos Deputados, e que a avaliação do governo Lula teve aprovação recorde no último mês de janeiro (mais de 70%), e ele, em pessoa, mais de 84%.

É, Benito, tudo está em seu lugar, de fato. Graças a quem, porém, francamente já não o sei.

Escrito por Phurba às 18h29
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12/01/2009


Sintonizei uma de minhas rádios virtuais prediletas, que fica em Seattle. Para minha surpresa, ouvi uma música brasileira, que descobri ser de um grupo chamado "Curumim". O som faz parte do álbum "Japanpopshow", e se chama "Compacto". Nunca tinha ouvido a referida música. Como achei inusitado ouvir uma música brasileira, até então minha desconhecida, numa rádio universitária pretensamente independente, e onde geralmente toca música dita "alternativa", deixei estar.

Até que os ouvidos não foram tão agredidos assim, embora também não gostasse do que ouvi. Na seqüência (com essa tal reforma ortográfica já não sei mais se uso a trema e o circunflexo, só um dos dois, ou nenhum), porém, tocou "Seu Jorge". Aí foi demais! O fígado reclamou da famigerada versão de Ziggy Stardust, ruim demais pra ser de verdade, e busquei outra opção dábliu dábliu dábliu.

Lembrei, então, de certa vez ter visto uma edição do Jools Holland, na BBC, e de ter ficado impressionado com a capacidade de se reunirem, em um mesmo programa (pasmem, de televisão!), na mesma noite e no mesmo palco, nomes como Dr. John, James Morrison, Nick Rhodes (este "apenas" para entrevista, sem apresentação de número musical, já que não o faz sem os demais integrantes do Duran Duran), Gnarls Barkley, Snow Patrol, e, como se não bastasse tudo isso, Franz Ferdinand! Meu Deus, como pode!? -pensei. Era bom demais pra ser verdade...

Comparando uma coisa e outra, lembrei-me, também, daquela estada em Buenos Aires, quando empanturrei de ouvir tango em cada esquina, em cada praça, em tudo quanto era lugar. Depois de um dia agradabilíssimo na Recoleta, voltei caminhando para o hotel, tranqüilamente, mas tão tranqüilamente, que a volta pela Avenida Alvear, passando pelo San Juanino, em direção à Plazoleta Carlos Pelegrini, para finalmente cruzar a Avenida Santa Fe, fez com que me esquecesse completamente que reservara assento no Monumental de Nuñez para ver o River contra o Velez.

Acabei vendo o jogo pela televisão, e não acreditava no que via. Como o jogo era na própria Capital portenha, a TV mostrava apenas as torcidas, sem qualquer imagem do jogo, com narração, comentários e reportagens ao fundo, como se se tratasse de transmissão radiofônica.

Em outra ocasião, pescava nas proximidades de Belo Horizonte. Tarde de sol, dia de jogos do Galo e do Cruzeiro. Para minha surpresa (outra delas), a Rádio Itatiaia, que tem narradores diferentes para cada um dos times, transmitia os dois jogos simultaneamente: "lá vem o Cruzeiro pelo ataque... gooooooooooool do Galo!" Uma confusão dos infernos...

Voltei de férias há pouco. Folheando os almanaques, descobri que na Polinésia se fazem previsões meteorológicas com precisão cirúrgica, a partir da observação das nuvens, do "sentir o vento no rosto", e de outros sinais que nos são invisíveis; e, entre outras coisas, que alguns povos dos Andes acreditam que as montanhas são vivas e que respondem aos homens.

Pensando em tudo isso, com a pele vermelha pelo sol acumulado na cachola ao longo dos últimos dias, e de volta à crise, concluo que "viajar devagar descansa mais depressa", e é viajando que mais adquiro cultura e crescimento, aprendendo a mais respeitar o outro.

Por essa razão, o meu desejo para 2009 é que todos, sem exceção, sejamos elegantes sem afetação, naturais sem demagogia, e firmes sem arrogância.

Feliz ano novo

Escrito por Phurba às 17h20
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25/11/2008


O artigo que segue foi escrito originalmente em 19 de março próximo passado, e foi encaminhado a diversos periódicos para eventual publicação - o que, evidentemente, não ocorreu, já que não se publicam matérias de autores anônimos em folhas nobres...

Resolvi transcrevê-lo aqui em função de aquele a quem chamamos Presidente da Rapública ter assinado, na quinta-feira passada, o Decreto do novo Plano Geral de Outorgas. Com toda razão o Janio de Freitas, na sua coluna do último domingo: não foi preciso uma Medida Provisória para a máscara cair de vez. Foi por Decreto, mesmo...

Na academia o estudante de direito aprende que a expressão privilégio tem sua origem no latim privilegìum, como resultado da composição dos termos privus (particular, privado) + legis (lei). Sua acepção, bem por isso, é a de designar uma lei excepcional, concernente a um particular ou a um pequeno e restrito grupo de pessoas.

Independentemente de estudiosos considerarem superada a tripartição funcional dos Poderes em Executivo, Legislativo e Judiciário, será esta a divisão que adotaremos para fins deste artigo, até porque foi este o critério adotado pela Constituição Federal de 1988, em seu artigo 2º. Explicaremos o por quê.

O Poder Executivo tem por finalidade precípua administrar, o que significa dizer que ele enuncia normas singulares e concretas, a partir das normas gerais e abstratas emanadas do Legislativo, para ele próprio (Executivo) agir na tutela dos interesses da comunidade. O Executivo nunca exercerá funções jurisdicionais, exceto por meio dos denominados tribunais administrativos, que, em realidade, não são tribunais e nem exercem função jurisdicional. Porém, o Executivo exercerá, excepcionalmente, a função legislativa, através da emissão de Medidas Provisórias. Os critérios para tanto estão especificados, por exemplo, nos artigos 62 e 246, da Constituição Federal.

Já ao Poder Legislativo incumbe elaborar normas gerais e abstratas. Gerais, veja-se bem. Extraordinariamente elaborará normas singulares e concretas (o que ocorreria, para exemplificar, se tivesse anistiado o Ex-Presidente Fernando Collor, restituindo-lhe sua elegibilidade — o que seria um caso típico de privilégio). O Legislativo exercerá, também, mas em caráter “anômalo”, funções administrativas e jurisdicionais, típicas do processo de impeachment e no julgamento do Presidente da República por crime de responsabilidade no exercício do cargo.

A função jurisdicional, por fim, constitui, em palavras bastante genéricas, a atribuição de dizer e/ou declarar e mandar realizar a norma singular e concreta relativamente a um fato, dizendo o direito que decorreu da incidência de uma norma geral e abstrata não cumprida. Tem, também, o Judiciário, funções administrativas e legislativas (v.g., elaboração do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal, que tem força de lei), ambas excepcionais.

Pois bem. Nos últimos dias temos lido nas folhas que a “Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) deverá propor a mudança na legislação do setor que permitirá a compra da Brasil Telecom pela Oi (ex-Telemar).” Dias antes já havíamos sido informados de que as minutas de contratos já estão em discussão, principalmente para ajustar os interesses conflitantes de Citibank, Daniel Dantas e outras personagens.

Resumindo a ópera: a lei não permite semelhante negócio. Se é assim, “a lei, ora, a lei...” Mude-se a lei!, decretam os que tinham o negócio entabulado adrede. E o governo, sabe-se lá movido por que interesses, proporá, ele próprio, a alteração do estorvo normativo que previne contra a concentração da riqueza, em prejuízo da livre concorrência e do bolso do cidadão.

Como diria nosso Presidente, “Nunca antes na história desse País” se viu um privilégio tão descarado, despudorado e prejudicial aos interesses da Nação como essa história da Oi-BrT. Sob a batuta de Lula surge mais essa ordem para vilipendiar a Constituição da República, em que a res publica e os limites constitucionais, ao quer que seja, já não têm mais significado.

Em vez de mandar preparar o privilégio, poderia o próprio Presidente fazê-lo, por Medida Provisória mesmo. De penada, evitaria perda de tempo e elevados gastos de dinheiro público com discussões (anti)democráticas (des)necessárias no Congresso, porque o longo tempo e a falta de agilidade com que as coisas costumam acontecer pode atrapalhar interesses privados, particulares e restritos, tão caros à nossa classe política.

O que nos resta é a esperança de que, perante o Judiciário, se e quando provocado, o autor das palavras que inspiraram este nosso artigo, o Ministro Cézar Peluso, ajude a fazer valer as suas lições, dando a César o que é de César, ao enunciar a norma singular e concreta de que nossos governantes, infelizmente, não se lembram mais: Est modus in rebus!

Escrito por Phurba às 10h28
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17/11/2008


Fiz terapia durante mais de dez anos. Talvez já tenha publicado que o que me levou à análise foi a dúvida entre casar ou comprar um carro, e que acabei fazendo as duas coisas, primeiro a última e por último a primeira. Mas isso é história que dá pano pra manga e que fica pra ser contada, oportuna e eventualmente, num futuro incerto, mediante provocação.

Uma das coisas que adotei durante o processo analítico, e que conservei após o seu fim, foi o chamado “Livro dos Sonhos”. Deixo à mão, próximos da cabeceira onde conservo meu altar, lápis e um bloco de anotações. Quando desperto — geralmente aos berros, assustado e com taquicardia, e mesmo quando sereno e descansado —, é automático tatear procurando o papel, onde registro o pesadelo que me acordou abruptamente, ou o sonho que prolongou meu repouso.

Noite passada tive um desses sonhos reconfortantes, meio sem pé nem cabeça, que só fazem sentido pra quem os têm. Alguém que não conheço apareceu não sei de onde me propondo voltar no tempo, para onde e quando quisesse, durante um final de semana. Nada mais, nada menos do que o período de um final de semana.

Quando vi, estava lá na fazenda, naquele lugar mencionado na crônica sobre as minhas férias. O lugar, mais familiar pra mim do que qualquer outro, era bem diferente do que é hoje, chegando mesmo a ser estranho: a vegetação da Serra não tinha sido devastada para plantio de café; em lugar dos açudes que ficam ao lado e abaixo do nível da casa havia brejos habitados por inúmeros e desconhecidos animais selvagens. Tudo era muito organizado e limpo, havia granjas de galinhas e porcos, o moinho de fubá e o monjolo funcionavam perfeitamente, a água era farta e cristalina, e a casa, ah!, a casa era aquela sobre a qual foi construída a que existe hoje: uma espécie de palacete colonial, com seu piso de tábuas largas, seu pé direito alto e janelas imensas, apesar de construída em taipa ou pau-a-pique.

O que mais me assustou foram as pessoas: meus avós jovens e bravos como nas descrições de minha mãe e meus tios. Estes, sempre acompanhados de uma multidão de primos, tinham todos metade da idade que tenho hoje, porque voltei no tempo sem perder as minhas características atuais. Paramos à beirada do barranco e olhamos o horizonte cinza e carregado de nuvens, observando a chuva e os raios que vinham em nossa direção.

Corta tudo. De repente me vejo no bairro Fundação, em São Caetano, a observar a fumaça que sai das chaminés hoje desativadas das fábricas que se espalhavam pela região. Ando sem eira nem beira, observando as paredes de tijolos aparentes, que tateio, e, posteriormente, escalo.

Subo a mais alta das chaminés, uma que hoje está tombada pelo patrimônio histórico. Pulo lá de cima, jogando-me para um vôo livre que se acalma quando, de minhas costas, surge um pára-quedas de matizes harmoniosos que me conduz em segurança para o chão: o chão batido do terreiro da fazenda...

Talvez eu não precise tanto assim de um pára-quedas, pois meus vôos livres têm sido profícuos quando me atiro de cabeça nas coisas. Mas preciso, isso sim, é de um novo bloco de notas, para escrever meus sonhos, sem sentido para alguns e totalmente pertinentes para mim.

Escrito por Phurba às 12h51
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21/10/2008


Na época da faculdade era raro ler alguma notícia jurídica nos jornais. Ouvíamos, evidentemente, falar de crimes bárbaros, notadamente daqueles contra a vida, o patrimônio e os costumes, bem como de seus respectivos julgamentos, acompanhados à distância pela mídia (palavra essa cuja extensão era bem diferente desse “monstro” que hoje conhecemos, esse da cobertura do seqüestro da Eloá, seja em tamanho, “meios” e tudo mais). Já os crimes de colarinho branco, ouvíamos falar deles pontualmente, aqui e ali, mas sem muitos detalhes. Porém, se quiséssemos ler notícias ou ter detalhes sobre inquéritos e processos, tínhamos de comprar a edição do “Estadão” de determinado dia da semana, quando o Diário se fazia acompanhar de um “Caderno de Justiça”, ou algo assim.

Folheando minha leitura diária, constato que os cadernos de política dos jornais têm em média 70% de seu conteúdo relacionado a assuntos jurídicos: listas de políticos processados, Polícia Federal daqui, inquérito acolá, condenação de não sei quem sabe Deus porquê, prisão preventiva daquel’outro. Habeas corpus e liminares, então, são assuntos corriqueiros que se ouvem em mesa de bar nestes tempos em que até o agravo de instrumento virou celebridade...

Hoje, um ex-professor meu “dá aulas” de “juridiquês” na “Veja”, para que os leitores entendam o “caso Isabella”. Há até uma TV Justiça, em que os “dinâmicos” julgamentos do STF são transmitidos ao vivo, permitindo que o telespectador (esse “ente” criado pelo Sílvio Santos) saiba, em tempo real, se as pesquisas com células-tronco embrionárias foram ou não consideradas constitucionais. Afe!

Quando crianças brincávamos que a mais extensa palavra que conhecíamos era “inconstitucionalissimamente”. Bem, naquele tempo não  sabíamos que tal vocábulo não existia, e tampouco lêramos alguma expressão em alemão ou finlandês, vernáculos em que se encontram palavras compostas por 73 consoantes entremeadas por meia-dúzia de vogais. Atualmente, qualquer um sabe que “inconstitucionalissimamente” não existe. Mesmo assim, compreende a sua mensagem...

Em que pese ao fato notório de que hoje o povo em geral está muito mais afeito às lides forenses, ao respectivo vocabulário e aos direitos propriamente ditos, ainda se vê muita gente escrevendo muita bobagem por aí. Se das faculdades de direito que se encontram em cada esquina saem anualmente milhares de bacharéis semi-analfabetos, o que dizer de quem nunca freqüentou a academia, como repórteres que não rubescem por falarem os maiores absurdos jurídicos, prestando um desserviço de desinformação? É triste constatar que alguns diuturnamente “estrupam” a língua e uma ciência tão nobre como o Direito.

Parece-me que esse é o preço que temos de pagar como reflexo da propalada universalização da justiça, que faz até com que o colarinho branco (não o crime, mas o do chope) seja levado às barras dos tribunais...

Enfim, muito mais poderia dizer a respeito. Mas é melhor eu parar por aqui, remetendo os interessados no assunto ao editorial da “Tribuna do Direito” de outubro de 2008, tanto para não transpor os limites da legalidade, quanto para não contribuir ainda mais para o aviltamento que critico com este meu arremedo de desabafo.

Escrito por Phurba às 19h02
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10/10/2008


Tenho para mim que minha atração pela língua inglesa e o gosto musical que me acompanha até hoje nasceram na Capital das Alterosas, no já longínquo ano de 1975, quando, envolvido pelo manto sagrado do Galo Forte Vingador, eu me colocava confortavelmente abaixo da escada em curva que conduzia ao pavimento superior da casa assobradada, abria a vitrola Philips vermelha em formato de maleta, e “botava” pra tocar um disco do Elton John que, por mais que tenha procurado ao longo desses mais de 30 anos, jamais encontrei (acho que era pirata, pois não faz parte da discografia oficial do lorde inglês).

Tratava-se de um LP (por maior que seja a tentação, não vou divagar na descrição do que seja um Long Play) cuja capa era uma espécie de foto ou gravura do rosto do artista em close (escrevi sem aspas porque a palavra está no “Aurélio”, apesar de não constar do “VOLP”) que pronunciava os óculos do tipo extravagante que ele costuma usar (fiquei meia-hora buscando uma alternativa a “usar óculos”, mas não achei, bolas!).

Lembro-me de deslizar a agulha pelas faixas Philadelphia Freedom, Crocodile Rock, Goodbye Yellow Brick Road e Skyline Pigeon, entre outras, acompanhando-as com meu “embromation”, de olhos fechados e alto volume da voz. Vez por outra, meu tio, o mais velho dos irmãos de minha mãe e nosso anfitrião, do alto de sua fluência na língua ânglica, passava por mim e vaticinava que eu teria muita facilidade para falar no dialeto de Shakespeare (ledo engano do meu tio, já que, ainda hoje, minha pronúncia macarrônica não me permite nada além de um sorry pra cá e um thank you pra lá, se tanto).

Voltei pra casa com a bolacha debaixo do braço. Foi meu primeiro disco. O segundo foi o “Greatest Hits”, do Queen, e tenho certeza de que, poucos anos depois, quando já trabalhava e podia fazer o que quisesse com meus trocos, comecei a comprar coisas do Black Sabbath, do Iron Maiden, e assim por diante. Lembro-me, inclusive, que no meu aniversário de 1986 esse mesmo tio me presenteou com o “Fly On The Wall”, do AC/DC, que nem era o disco mais recente na ocasião, já que o “Who Made Who“ fora lançado pouco antes.

Não demorou muito para começar a assistir a shows. O primeiro deles foi o do Van Halen, no ginásio do Ibirapuera, em janeiro de 1983. Fui com um primo do outro lado da família, e ainda hoje tenho comigo o canhoto do ingresso, guardado em algum canto de algum lugar que não faço a mínima idéia de onde seja. Um dos mais marcantes, sem dúvida, foi o primeiro do Metallica, também no ginásio do Ibirapuera, em 1989, exatamente dois dias depois do meu aniversário de vinte anos, razão pela qual digo que esse foi o melhor presente de aniversário da minha vida.

Agora, não teve um show melhor do que a apresentação conjunta do Mercyful Fate e do King Diamond em São Paulo, no Highlander, em agosto de 1996. Simplesmente antológico!

(Abre parênteses: a partir desta linha eu ultrapassarei o limite que estabeleci para os textos que tenho publicado. Lamento, Roseli, mas, desta vez o texto ficará mais longo, porque não tive tempo, nem vontade, de fazê-lo curto. Fecha parênteses.)

Fiz todo esse rodeio para falar do que realmente interessa, se é que há algum interesse nessa história além do meu próprio.

Esta semana fui a mais um show do The Cult, no Credicard Hall. Enquanto esperávamos pela apresentação sofrível do Ian Astbury, compensada pela simplicidade e competência do Billy Duffy, falávamos, como sói acontecer antes de concertos, dos shows de nossas vidas, dos discos de nossas vidas, das melhores formações das bandas de nossas vidas, olhando o povo que chegava, apreciando a fauna ao redor e o sabor da melhor cerveja Petra, adquirida pela bagatela de cinco paus a latinha (!).

Foi então que me ocorreu que, ao tempo do primeiro show do Metallica, mencionado lá em cima, seria inconcebível vermos alguém com uma camiseta, por exemplo, da Madonna. De algum artista punk ou funk, então, nem se fale! Impossível.

Naquela época uma tribo não se misturava com outra, a não ser para encetar brigas tão homéricas quanto estúpidas. Hoje, porém, vê-se gente de todo jeito, pra todo gosto, misturada e feliz da vida: é um com uma camiseta do KLB, cantando uma música do ZZ Top, abraçado a outro alguém vestindo terno, em meio a gente vestida de preto ou com suas minúsculas (e deliciosas) saias pregueadas etc. etc.

Resmunguei comigo mesmo essa constatação, e meu (sempre) companheiro de jornada, ouvindo-me, começou a filosofar comigo que talvez aquela nossa postura radical, típica da década perdida, fosse fruto da transição que vivíamos da ditadura para a democracia, da longa proscrição da manifestação de pensamento, com que nós, recém-apresentados a esse néctar, acabamos nos melecando, transformando-o, no mais das vezes, em fel. E por aí fomos.

Divagamos, literalmente. Quando nos demos por nós, vimos que o show começara. E que era bom termos, nós, também, evoluído, deixando de ser radicais, e de ouvir apenas um estilo de música como se ele fosse um mantra, uma religião, e nós, fanáticos, bitolados.

Nada como, hoje, ainda apreciar aquele que é meu estilo de música preferido: o heavy metal. Melhor, porém, é poder abrir as portas-balcão da varanda, baixar a luz, abrir uma garrafa do meu eterno companheiro Jack, ou, quiçá, de um bom Catena Zapata, e escolher entre John Coltrane, Ottmar Liebert, Softcell, Paulinho da Viola, Luciano Pavarotti, whatever...

Um dia farei como o Nick Hornby em “Alta Fidelidade”, e escreverei as minhas listas das “cinco mais”. Antes disso, vou procurar alguma música do Elton John na internet, para, quem sabe, voar, na minha imaginação, feito um skyline pigeon...

Escrito por Phurba às 19h15
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