Na noite do baile de formatura da minha irmã, ela recebeu um telefonema que a enfureceu: uma de suas melhores amigas, que fora, inclusive, sua colega de turma, informara que não iria à festa, pois “não estava a fim”.
Lembro-me que tentei consolar minha irmã (com minha pretensa e irritante compreensão para com o outro e o tamanho de sua régua — nem sempre da mesma medida que a nossa), dizendo-lhe para tentar compreender, e que talvez fosse melhor, mesmo, sua (nossa) amiga não ir, do que ir contrariada ou sem vontade, sei lá, e ficar de bico o tempo todo (pura projeção minha), por exemplo; ao que minha irmã redargüiu: “Que avisasse antes, então, para eu poder convidar outra pessoa”.
É. Toda moeda tem dois lados, e eu ponderei que “mal humor” não escolhe a hora para nos visitar, assim como, vejo hoje, consideração, por menor que seja, também não faz mal a ninguém.
Pois bem. Divagações de advogado do diabo (pra lá e pra cá) deixadas de lado, vamos ao que interessa (se é que interessa a alguém que não seja eu próprio).
Recentemente um grande amigo casou-se. Para comparar todas as situações sobre as quais estou falando, tenho de dizer o seguinte (sem ferir a intimidade de quem quer que seja): o camarada convidou umas trezentas pessoas para o festejo, e uma boa parte delas atendeu ao R.S.V.P. Porém, mesmo assim, faltaram bem lá uns cinqüenta convidados.
Aí eu pergunto: o sujeito gasta uma fortuna para oferecer uma recepção em local pra lá de luxuoso, com boa comida, bebida à vontade, música para descontrair etc., e alguém se dá (como se diz na minha terra) à pachorra de, após confirmar presença, simplesmente não ir?
Não creio que uma “epidemia” de dor de barriga tenha acometido cinqüenta ou mais indivíduos na mesma noite (“coincidência” demais para o meu gosto), ou que eles todos tenham, de última hora, passado por perrengues tais que lhes impossibilitaram, absolutamente, de honrar o compromisso que assumiram.
Honrar. Essa é a palavra chave deste post. Por mais que a noite chuvosa e fria desse, mesmo, uma preguiça tremenda, se as pessoas que lá não compareceram soubessem o significado da palavra “honrar”, e que convite formulado (e por elas aceito) era motivo de enorme honra, jamais se dariam a tamanha desfeita. Teriam honrado aquilo a que se comprometeram...
Até bem pouco tempo eu não sabia o que significava R.S.V.P. Procurei saber e descobri (http://pessoas.hsw.uol.com.br/questão450. htm). E o que descobri fez com que eu desse razão à minha irmã, apesar de, em seu convite verbal, tenho certeza, ela sequer fizesse menção a um pedido para “responder ao convite, por favor”. Entendi tanto que o que senti não foi fúria: foi tristeza, mágoa, mesmo!
Por certas coisas não se implora; ou melhor, não se devia implorar.
E eu, que estou cada dia mais à beira dos quarenta, bem que queria ser mais veemente do que fui em meu convite para essa passagem vindoura, porque, às vezes, o que parece óbvio não é, já que tem gente que simplesmente não lê o que se escreve; outros, lêem e não entendem o que foi lido; e muitos, embora leiam, simplesmente fazem de conta que não leram.
É por essas e outras que o melhor, mesmo, como escrevi em crônica recente, é dizer a verdade. Assim, quando você tiver de convidar alguém, faça como antigamente, ainda que dê um trabalho do caralho: não mande e-mail, não telefone e nem mande carta pelo correio; vá pessoalmente e diga que você gastou uma puta grana, razão pela qual precisa da confirmação da presença para saber quanta bebida e comida precisará comprar, quantas mesas e cadeiras terá de alugar; informe que no lugar cabem x pessoas, e que, se esse convidado confirmar e não for, tirará de outro convidado a possibilidade de ir, esvaziando a festa e fazendo você, anfitrião, gastar sem necessidade; e, entre outras, para quem é o convite, ou seja, para ele(a), convidado(a), e seu(sua) acompanhante, e não para bicos em geral, como sogra, namorada do irmão, papagaio e/ou afins...
Tudo isso parece óbvio. E não me parece que seja necessário compreender francês para saber de tudo isso.
Infelizmente, porém, óbvio já vi que não é.
Pra não mandar ninguém para “aquele” lugar, só me resta, então, pedir àqueles a quem veste a carapuça, que aprendam francês, ou leiam o link recomendado, já que certas coisas, se não vêm do berço, podem, sim, ser apreendidas.
C'est là mon espoir.